domingo, 15 de agosto de 2010

GENOCÍDIO

(À memória do massacre do povo de Timor-Leste pela Indonésia, em 12 de Novembro de 1992)

Eu vi! Eu vi!
E uma parte de mim
permanece atónita perante o horror
das imagens
que alguém, corajoso, fixou.
Cerro os olhos
e tudo continua a atropelar-se
no meu cérebro,
estupefacto pelo choque.
Reprimo a custo
um imenso vómito.
Sei, de certeza, que não esquecerei mais.
Ser-me-á impossivel esquecer algum dia.
Ah, Timor,
a longínqua,
a ignorada,
a quase dizimada!
A mártir...
Ah, Timor,
quantas de ti existirão
ocultas pelo mundo fora!?
Até quando
o Homem suprimirá o Homem?
Todas as razões são ilegítimas.
Sob os sorrisos falsamente inocentes
dos grandes senhores da Terra
late,
de uma forma
cada vez menos disfarçada,
a hipocrisia
e os seus discursos inflamados
são o compromisso
entre a demagogia e o lucro.
Mas o Senhor maior
é o cifrão
e o mundo tornou-se uma selva
cada vez mais infernal.
Todas as palavras belas
se esvaziaram de sentido
e a esperança é cada dia mais ténue.
Não fora o calendário,
exacto e frio,
e não poderia crer
ter o pé na berma do terceiro milénio.
O Homem não deixa de ser
o maior predador.
Até de si próprio.
Que é de Deus?
Para onde vamos?
Para onde fugir?
Este mundo,
cada vez mais absurdo e inqueitante,
dá-me um pavor de morte.


Lxa 23 /11/92 by Betty Pacheco

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