segunda-feira, 10 de agosto de 2009

EU

Eu sou aquela lenta e rubra folha
Que o vento arrancou da árvore-mãe
Sou a que busca inútilmente alguém
Sou a que ninguém vê mas qualquer olha.

Eu fui o descuidado rouxinol
A quem um dia a vida emudeceu
Eu fui a bela planta que morreu
À míngua d'água e do calor do sol.

Eu sou a canção desconhecida
Que o poeta fez com extremo amor
Sou a pintura triste, já sem cor
Que alguém criou e deixou esquecida.

Eu sou o queixume dolorido
Lançado pelo vento no inverno
Eu sou a cinza, o pó eterno
Que restou de um cigarro já ardido.

Betty Pacheco

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