domingo, 4 de outubro de 2009

Hoje não quero viver.
Ah, se a vida fosse um mecanismo qualquer
que a gente desligasse quando quer,
hoje não viveria.
Talvez amanhã,
ou depois,
ou noutro dia,
quando viver fosse
minimamente suportável.
Recuso-me a viver hoje!
Vou fingir que não o farei.
Fingirei
que os meus olhos estão cerrados,
que este pulsar não é meu.
Esquecerei
qualquer imagem que vir.
Hoje não quero sentir
a angústia que ora sinto,
que me torna
o peito tão oprimido
como apertado num torno.
Hoje é dia não vivido.
Será dia desligado
no mecanismo da vida.
E nesta morte fingida
vou recuperar a força
de prosseguir mais um pouco
neste andar titubeante
que é o meu.


(Betty Pacheco)

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